Múmias egípcias

Desenho múmia para texto Múmias: o que são elas?

Você com certeza já deve ter visto por aí alguma múmia como esta ao lado, em um filme, em um desenho, em um museu ou no Dia das Bruxas. Mas você sabe o que são as múmias e qual sua origem? 

A imagem ao lado é da múmia natural de um homem, morto na neve há cerca de 5.300 anos Por ter sido encontrada no Vale do Ötztal, na Itália, a múmia foi apelidada de Ötzi (Imagem Wikimedia Commons).

A imagem acima é da múmia natural de um homem, morto na neve há cerca de 5.300 anos Por ter sido encontrada no Vale do Ötztal, na Itália, a múmia foi apelidada de Ötzi (Imagem Wikimedia Commons).

As múmias são corpos de pessoas ou animais que após a morte ficaram preservados por ação da natureza ou por ação humana. Em locais muito secos, muito frios ou com pouco oxigênio, os cadáveres podem ficar preservados porque os pequeninos organismos que se alimentam dos corpos mortos não têm condições de agir nesses ambientes. Nesse caso, ocorre o que chamamos de mumificação natural.

Já as múmias como aquelas do desenho acima, enroladas em tiras de tecido, têm sua origem no Antigo Egito e foram feitas entre 5.000 e 2.000 anos atrás, aproximadamente. Os egípcios acreditavam que a vida continuava após a morte do corpo, em um outro mundo e, para que o morto pudesse viver bem essa outra vida, seu corpo precisava ficar preservado. Dessa forma, os egípcios desenvolveram um complicado, longo e caro processo de mumificação.

Exatamente pelo fato de ser difícil produzir uma múmia, nem todas as pessoas que morriam no Antigo Egito eram mumificadas. No início, apenas os corpos dos faraós (como eram chamados os reis-deuses no Antigo Egito) eram preservados desta forma. Com o passar do tempo, outras pessoas de destaque na sociedade egípcia, como sacerdotes e altos funcionários do governo também passaram a ser mumificados. Para as pessoas mais simples, no entanto, o processo de mumificação sempre foi muito caro, como explica o arqueólogo Antonio Brancaglion Junior, coordenador do Laboratório de Egiptologia do Museu Nacional – UFRJ, no Rio de Janeiro. “Os camponeses enterravam seus mortos direto na areia”, conta o pesquisador. Talvez eles fizessem isso na esperança de que seus corpos ficassem preservados de maneira natural, por causa do ambiente extremamente seco.

Para aquelas famílias que podiam pagar pela mumificação de seus mortos, o processo era realizado por sacerdotes especialistas. “Havia um sacerdote responsável por cada etapa da preparação de uma múmia e os mais importantes eram aqueles que faziam as rezas finais”, conta Brancaglion Junior. Durante todo o processo de mumificação eram realizados rituais sagrados que ajudavam a preparar o morto para sua nova vida.

Como parte da preparação para a vida após a morte, junto com as múmias eram guardados tesouros, amuletos de proteção e objetos pessoais que pudessem ajudar a pessoa em sua nova vida. Para preservar esses objetos e a própria múmia de ladrões e curiosos, as tumbas egípcias costumavam ser lacradas, algumas tinham suas entradas escondidas e muitas delas pareciam um labirinto. As conhecidas pirâmides egípcias são apenas um dos tipos de tumbas, geralmente reservadas aos grandes faraós.

Múmias animais!

Gato_mumificado_01

Gato mumificado no Antigo Egito, há cerca de 2.100 anos (Imagem Wikimedia Commons).

E não eram só as pessoas próximas que os egípcios costumam mumificar. Muitos animais também foram transformados em múmias durante a história do Antigo Egito. De acordo com o pesquisador Antonio Brancaglion Junior, os egípcios mumificavam diversos animais e por diferentes motivos. “Os animais podiam ser mumificados por serem animais de estimação da pessoa morta, como oferendas aos deuses ou por serem animais sagrados para o povo egípcio, com alguma relação com os deuses”. Nesse último caso encontram-se os gatos, que foram os animais mais mumificados pelos egípcios. No Egito, há registro de cemitérios em que foram encontradas mais de 300 mil múmias-gato!

 

Outras múmias

Além dos egípcios, havia outros povos que tinham o costume de mumificar seus mortos, como os Incas. Um cemitério Inca, com cerca de 500 anos de idade, encontrado enterrado embaixo de uma favela, em Lima, no Peru, revelou centenas de múmias enroladas em camadas de algodão, formando uma espécie de casulo, como aqueles produzidos pelas lagartas. Em cada casulo podia haver uma ou mais múmias, além dos objetos pessoais dos mortos.

Um dos casulos encontrados na favela de Lima chamou a atenção dos arqueólogos pela grande quantidade de algodão utilizada para enrolar as duas múmias que descansavam lá dentro: um bebê e um homem, apelidado de “O Reio do Algodão”. Os pesquisadores acreditam que os dois eram parentes e provavelmente eram pessoas ricas, pela variedade de objetos enterrados junto com eles.

Assim como os egípcios, os Incas acreditavam na vida após a morte. Esse povo pensava que as almas dos mortos mantinham contato com os vivos e, por isso, cuidavam bem daqueles que se foram dessa vida.

A maldição das múmias

Se mesmo depois de conhecer tantas informações interessantes sobre as múmias você ainda sentir medo de encontrar uma delas andando por aí, saiba que as múmias egípcias não costumavam abandonar suas tumbas, como nos explica Brancaglion Junior. “Ao contrário do que muita gente pensa, os egípcios não acreditavam que as múmias iriam se levantar e sair andando. Na verdade, eles acreditavam que a pessoa era feita de vários elementos e todos eles deveriam ser preservados para que aquela pessoa pudesse viver no além. Isso não quer dizer que o corpo mumificado seria usado novamente e sairia passeando por aí.”

Mas de onde então vem a história da maldição das múmias e o medo que elas costumam causar? Provavelmente vem do fato de que as tumbas egípcias guardavam inscrições dizendo que aqueles que perturbassem o morto seriam amaldiçoados. Os egípcios faziam essas inscrições para afastar os ladrões e impedir que o corpo mumificado fosse mexido. Além disso, como ficam muito tempo fechadas dentro das tumbas, as múmias podem desenvolver fungos (parecidos com aquele bolor que aparece no pão velho) que são venenosos para as pessoas. Nesses casos, ao abrir os sarcófagos (uma espécie de caixão onde as múmias eram colocadas), os fungos espalham-se pelo ar e podem realmente matar aqueles que perturbaram o sono do morto.

Como fazer uma múmia! O processo de mumificação

*Texto adaptado de http://www.ngkids.co.uk/did-you-know/make_a_mummy

(Ilustrações de Marek Jagucki)

Você quer ter certeza de que um corpo se preservará para a vida após a morte? Então junte-se a nós para descobrir como os antigos egípcios preparavam suas múmias!

  1. Para começar, lave o corpo do morto com vinho e água do rio Nilo (principal rio do Egito). Faça um pequeno corte na parte lateral da barriga e retire os órgãos internos. Para retirar o cérebro, enfie um gancho pelo nariz e torça-o até que o cérebro se desfaça e seja possível puxá-lo para fora. Desfaça-se desse órgão. F5g 1
  2. Limpe o fígado, os pulmões, o intestino e o estômago e guarde-os em vasos especiais, chamados de canopos, cujas tampas representam as cabeças dos deuses protetores de cada órgão. O coração deve permanecer no corpo, pois, para os antigos egípcios, esse órgão era o centro da inteligência.
  3. Use um sal egípcio especial, chamado natrão, para preencher as cavidades do corpo e cobri-lo. O natrão irá retirar toda a umidade do corpo, porém, esse processo deverá durar cerca de 40 dias para estar completo.

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4. Passados os 40 dias, retire o natrão e encha as cavidades (buracos) do corpo com pedaços de tecido de linho encharcados em resina, com especiarias e com plantas, para que ele não perca sua forma.

Fig 3

5. Enrole o corpo com ataduras de fino tecido de linho. Não se esqueça de colocar alguns amuletos da sorte entre as ataduras e diga as magias que irão ativar seus poderes mágicos de proteção. Coloque a múmia dentro de um sarcófago e esse sarcófago dentro de outro sarcófago, para que o corpo fique bem protegido. Coloque todo o conjunto em uma tumba.

Fig 4

Esse tema dá trabalho!

O que você acha de trabalhar pesquisando as múmias egípcias? Pois saiba que, mesmo no Brasil, a milhares de quilômetros de distância do Egito, é possível seguir essa carreira. Abaixo, você pode ler nossa conversa com Márcia Jamille Costa, arqueóloga especialista no estudo do Antigo Egito, autora do livro Uma Viagem pelo Nilo e do blog Arqueologia Egípcia, que deu algumas dicas para quem se interessa pela profissão.

Criança ComCiência (CCC): Para quem quer pesquisar as múmias e os processos de mumificação, que carreira deve seguir? 

Márcia Jamille Costa (MJC): Antigamente, os profissionais que estudavam as múmias eram aqueles cuja formação estava ligada a alguma área das ciências médicas e com pouca ou nenhuma ligação com a Arqueologia, isto quando as dissecações (ato de desenfaixar o corpo) de muitas múmias não eram feitas por aventureiros ou colecionadores de peças antigas. Felizmente, nos dias atuais o cenário é bem diferente. Os profissionais de áreas médicas, como Medicina, Biologia, Veterinária, ainda estão presentes, mas agora com especialização em Bioarqueologia (disciplina que estuda os restos mortais de seres vivos que viveram no passado) ou dentro de uma equipe que inclui vários profissionais, entre eles o arqueólogo.

CCC: Quais características e habilidades alguém que quer trabalhar nessa área precisa ter?

MJC: O fundamental é conhecer sobre esqueleto, sabendo como identificar a partir dos ossos características como o sexo, a idade e a possível causa da morte da pessoa. Também é bom conhecer um pouco sobre a estrutura muscular e a localização dos principais órgãos do corpo. Além disso, é preciso entender sobre Tanatologia, que é o estudo das mudanças físicas nos corpos, causadas pela morte; e sobre Tafonomia, que é o estudo dos processos pelo qual o corpo passou após a morte e que vai ajudar a definir o que de fato provocou a mumificação. Também acredito que o profissional tem que ter ética e consideração com os mortos. Não tem coisa mais triste e infantil durante um trabalho de campo ou laboratório do que ver um colega ou aluno brincando com partes de um corpo, como se fosse somente um objeto para a curiosidade e não o que sobrou de uma pessoa que no passado respirou, amou, odiou e que até mesmo pode ter caminhado um dia pela área do sítio arqueológico pesquisado.

CCC: Quais são os maiores desafios e as maiores alegrias no trabalho em Arqueologia Egípcia?

MJC: Alguns dos principais desafios, no caso do nosso país, ainda é a fraca união entre os pesquisadores brasileiros e o aparecimento e desaparecimento de grupos de estudos. Já em um contexto mundial é insistir em manter os estudos sobre o Antigo Egito usando técnicas e conhecimentos já muito antigos. Nesse sentido, a Egiptologia precisa se atualizar, mas poucos fazem algo de fato para mudá-la.

Já as alegrias são muitas, mas a principal é estar em uma posição de poder conhecer a história de um ponto de vista privilegiado. Parte da minha infância e adolescência, eu passei lendo sobre a vida no Antigo Egito, mas agora sou eu quem está escrevendo e discutindo esta história e outras pessoas estão no meu antigo lugar, saciando sua curiosidade. Fora a oportunidade que tive de conversar com pessoas que eu via em documentários e admirava o trabalho. É muito legal! De vez em quando, escuto ou leio histórias de crianças ou adolescentes que ganharam o meu livro e ficaram muito felizes. É bastante satisfatório saber que o meu amor pela profissão está influenciando na educação de alguns meninos e meninas espalhados por este Brasil.

CCC: Você já foi ao Egito? É possível trabalhar com Arqueologia Egípcia sem sair do Brasil?

MJC: Nunca fui ao Egito. Tive a oportunidade de ir estudar lá uma vez, em Amarna (local onde o famoso faraó Tutankhamon nasceu e a rainha Nefertiti e o faraó Akhenaton viveram), mas optei por permanecer no Brasil e terminar meus estudos. A viagem ao Egito seria muito cara e escolhi investir meu dinheiro em outras coisas. Claro que planejo ir escavar no Egito um dia, mas não como uma estudante que precisa pagar, quero ir como arqueóloga! Quem sabe até futuramente como coordenadora de escavação… (risos)

Sobre se é possível trabalhar com Arqueologia Egípcia sem sair do Brasil? Sim, é possível e deve ser feito. Algumas pessoas, especialmente quem está começando agora na Arqueologia, costumam acreditar que a profissão de arqueólogo se faz só escavando a areia, procurando objetos… Mas a realidade é bem diferente. Em verdade, tanto para o Egito, como para o restante do mundo, seria mais interessante aproveitar os objetos que estão em universidades e museus. Existem teorias e metodologias novas que podem ser aplicadas e proporcionar novas interpretações para o passado. As revisões de antigas traduções também são necessárias e até as análises de diários de campo podem ser desenvolvidas por arqueólogos! No meu caso, por exemplo, fiz um trabalho de discussão do uso simbólico e físico da água durante o Egito faraônico através da perspectiva da Arqueologia de Ambientes Aquáticos e isso sem precisar tocar em um grão de areia, mas aproveitando o que já foi escavado e documentado por outros colegas arqueólogos.

Multimídia

Vídeo “Como desenhar uma múmia”

https://www.youtube.com/watch?v=CDglBvy79JY

Jogo “Múmia pra lá, múmia pra cá”

http://chc.cienciahoje.uol.com.br/multimidia/jogos/mumia/

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