Onças

Eles trabalham para a proteção das onças e de outros animais

Elas já viviam no Brasil muito antes de nossos pais e avós terem nascido. Estamos falando das onças, que eram encontradas em quase todo o país, mas devido à derrubada das florestas para construção das cidades e da caça a estes e outros animais, foram desaparecendo.

Hoje as onças vivem principalmente na Amazônia e no Pantanal, onde estão mais protegidas, pois são áreas selvagens muito grandes e com pouca gente morando. Para que elas não desapareçam por completo, há quem trabalhe para isso, como o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (CENAP).

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Foto CENAP / Equipe durante trabalho de campo

Proteger e estudar esses animais é uma das principais tarefas do CENAP, onde diversos veterinários e biólogos trabalham. Mas não pense que o CENAP cuida somente das onças, o centro também se preocupa com outros carnívoros e mamíferos selvagens (animais que vivem nas matas, alimentam-se de carne e possuem glândulas mamárias, permitindo que as fêmeas produzam leite para alimentar seus filhotes). Entre esses animais estão a onça-pintada e a onça-parda, o lobo-guará, a ariranha (da família da lontra), a jaguatirica, o quati, o gato-do-mato, o cachorro-do-mato, entre outros.

Faz parte desse grupo o veterinário Paulo Roberto Amaral (na foto acima, o primeiro da esquerda para a direita), analista ambiental do CENAP. Segundo ele, não basta proteger apenas as onças, é preciso proteger também as terras onde elas vivem. “Temos que impedir que as pessoas matem as onças e criar áreas protegidas para que elas possam viver”, diz Paulo, que aconselha: “É muito importante que vocês, que ainda vão viveram muito tempo, também protejam a natureza. O lugar da onça, do lobo, de todos os animais é nas matas e nos campos, vivendo livres e em paz. Então, não comprem passarinhos ou qualquer outro bicho selvagem para prendê-los em gaiolas, não comprem peles de onça e reclamem quando virem alguém dizendo que é legal matar um bicho. Peçam para os seus pais levarem vocês para passear nos parques da natureza. Não só no shopping”, ensina o veterinário.

Este tema dá trabalho!

Criança ComCiência (CCC): O que faz um analista ambiental?

Como analista ambiental Paulo faz um monte de coisas: cuida da floresta, conserta motor de barco para andar pelo rio, dá multa para quem prende passarinhos para vender, estuda os animais e muito mais. Muitas vezes ele precisa ficar bastante tempo no escritório do CENAP estudando, escrevendo e orientando quem liga para saber o que fazer se uma onça estiver atacando seus os bezerros, por exemplo. Algumas vezes ele sai para ensinar, Paulo faz apresentações e exposições sobre o seu trabalho. E, pelo menos uma vez ao ano, ele sai para o campo para capturar um mamífero carnívoro, com o objetivo de fazer estudos. Estes estudos envolvem contar quantos animais encontraram, saber onde vivem, quantos filhotes poderão ter, como está a sua saúde de cada um deles e muitas outras coisas.

CCC: Como a equipe do CENAP captura uma onça?

Pegar uma onça para estudar não é uma tarefa tão simples, o grupo chega a ficar de 30 a 40 dias na floresta para capturar um animal, existem três maneiras básicas para se fazer isso (mas não tente fazer isso, pois é muito perigoso):

  1. Seguindo o rastro da onça com a ajuda de cachorros. Os cães acompanham a equipe do CENAP e perseguem a onça até ela subir numa árvore. A equipe atira um dardo com anestésico, fazendo com que a onça adormeça e caia da árvore, mas não se assuste, pois a equipe apanha a onça numa rede para que ela não se machuque antes de atingir o solo. O problema é que neste caso se algo der errado tanto onça, cachorros quanto equipe podem se machucar.
  2. Armadilha – a equipe prepara uma caixa de arame bem reforçada com uma isca dentro. Quando a onça entra na caixa para comer a a isca, esta se fecha e a onça fica presa. De fora, a equipe atira um dardo tranquilizante e espera o animal dormir. O problema é que armadilha é muito pesada para ser transportada no meio da mata e as onças são muito espertas, por isso também é difícil que elas entrarem na armadilha.
  3. Armadilha do laço – Devido a esses problemas acima, a equipe de Paulo tem usado a “armadilha de laço” para capturar as onças. O laço é feito com um cabo de aço bem forte, que fica escondido numa trilha onde a onça costuma passar. Se ela pisar no laço, este se fecha e a onça fica presa pela pata. Para evitar que ela se machuque, um transmissor (um aparelho presente no laço) faz com que um sinal apite na base, onde a equipe do CENAP fica localizada avisando que a onça foi pega e onde ela está. Assim como nos outros casos, ao encontrar a onça a equipe atira um dardo tranquilizante e espera o animal dormir.

“Depois que a gente comprova que a onça está completamente anestesiada, tiramos sangue, urina, pelos e parasitas (carrapatos e pulgas) para fazer exames. Medimos o bicho todinho (comprimento, altura, tamanho dos dentes etc.). Se for preciso, colocamos uma coleira que vai mandar sinais de onde o bicho vai andar. Quando tudo termina, deixamos a onça numa situação protegida e, de longe, esperamos ela acordar e ir embora”.

Algumas vezes esse trabalho de procurar onças no meio do mato resulta em histórias engraçadas conta Paulo: “Uma vez no Pantanal, estávamos preparando uma armadilha de laço e o meu amigo estava limpando o chão, no meio das folhas secas e do capim. Quando ele foi puxar um pequeno galho, ele deu um baita grito e jogou o galho pra cima. Era um filhote de cobra sucuri. Ele não fez nada e saiu correndo para o rio. Todo mundo deu risada”.

Multimídia

Vìdeo “Ensinando a desenhar onça-pintada”. Aprenda a desenhar uma onça passo a passo:

https://www.youtube.com/watch?v=o7B4IiQdz6c

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Megafauna Pleistocênica

Gigantes do passado

Aposto que você já ouviu falar algo sobre os dinossauros, não é mesmo? Mas você sabia que, muito tempo depois da extinção dos dinossauros, viveu em nosso planeta outro grupo de grandes animais, na sua maioria também já extintos? Esse grupo de animais é conhecido como Megafauna Pleistocênica.

Achou o nome complicado? Então vamos lá: Megafauna significa conjunto de animais (fauna) de grande tamanho (mega) e Pleistocênica refere-se à época em que eles viveram no planeta Terra, o Pleistoceno. Os geólogos costumam dividir a história da Terra em eras, períodos e épocas, cada uma delas com um nome diferente, assim como nós dividimos os anos em meses, semanas e dias. O Pleistoceno é a época que se iniciou há aproximadamente 2,6 milhões de anos e terminou há cerca de 11.000 anos, quando chegou ao final o que os cientistas chamam de “Era do Gelo”. Foi nesse intervalo de tempo, portanto, que viveu a Megafauna Pleistocênica.

“A Megafauna Pleistocênica habitou todos os continentes do planeta, menos a Antártida”, nos conta Hermínio Ismael de Araújo Júnior, paleontólogo e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Mas o conjunto de animais encontrado em cada continente era diferente”, explica o pesquisador. Quais eram os animais que estavam presentes em cada localidade dependia do tipo de ambiente que existia lá: se havia matas mais fechadas ou mais abertas, se havia pastagem, se chovia muito ou pouco, se fazia muito frio… No filme “A Era do Gelo”, aparecem animais da Megafauna Pleistocênica que viveram principalmente no hemisfério norte do planeta, como o mamute (o Manny, no filme). Já no Brasil, estavam presentes principalmente espécies de preguiças-gigantes, tatus-gigantes, tigres-dentes-de-sabre, mastodontes (parentes antigos dos elefantes), toxodontes (animais que lembravam um hipopótamo), paleolhamas (lhamas pré-históricas) e macrauquênias (não há nenhum animal parecido com a macrauquênia hoje em dia!).

Os fósseis que ficaram preservados nas rochas são, hoje, a única forma de conhecermos sobre esse conjunto de animais extintos. No Brasil, os fósseis de animais da Megafauna Pleistocênica são encontrados principalmente nas rochas formadas em antigos rios e lagos, em cavernas e em tanques naturais (formações encontradas somente na região Nordeste do país – veja a foto abaixo). “Os fósseis da Megafauna são bastante úteis para nos informar sobre os ambientes que existiram no passado, pois os mamíferos de grande porte vivem principalmente em ambientes mais secos e com vegetação mais aberta”, parecidos com a paisagem das savanas africanas de hoje em dia. “Esse é o tipo de ambiente que se acredita que existiu no país durante o Pleistoceno”, diz Araújo Júnior.


Tanque natural em Itapipoca, Rio Grande do Norte (Imagem: Celso Lira Ximenes, 2007).

Tanque natural em Itapipoca, Ceará (Imagem: Celso Lira Ximenes, 2007).

Os tanques naturais da região Nordeste são formações que lembram uma bacia escavada na rocha. Ao longo do tempo, essas bacias enchem-se de sedimentos que são trazidos pelo vento e pelas enxurradas causadas pelas chuvas. Junto com essa água, ossos de animais da Megafauna Pleistocênica que morreram próximo dos tanques podem também ser transportados, ficando preservados em seu interior.


Homem e Megafauna Pleistocênica

A espécie humana teve sua origem no continente africano, por volta de 200 mil anos atrás, e logo se espalhou pelo mundo, ocupando a Europa, a Ásia, a Oceania e, por último, as Américas. A chegada do Homem na América do Sul tem pouco mais de 10.000 anos (embora esse seja um ponto de grandes discussões entre os cientistas!). Essas datas nos indicam que os primeiros seres humanos modernos (chamados pelos cientistas de Homo sapiens) devem ter encontrado mamutes, tigres-dentes-de-sabre e companhia por aí. “Muitos dos animais que compõem a megafauna coexistiram com a espécie humana em diversos continentes, incluindo a América do Sul. No Brasil, as evidências dessa coexistência ainda são raras, porém algumas são bastante fortes para indicar que o homem pré-histórico e a Megafauna coexistiram e interagiram ao longo do final do Pleistoceno”, explica Araújo Júnior.

O que ainda não pode ser afirmado, no caso do Brasil, é que os seres humanos caçaram esses animais gigantes. Embora haja evidências de que homens pré-históricos e animais tenham vivido nos mesmos locais, nunca foram encontradas provas definitivas de que os seres humanos matavam esses animais para se alimentar de sua carne. Caso isso acontecesse, era esperado encontrar ossos desses animais com marcas de corte, junto com as ferramentas de pedra usadas pelos homens pré-históricos, por exemplo, como já ocorreu na América do Norte. Agora, por que esses primeiros povos sul-americanos não caçavam a Megafauna Pleistocênica, que poderia oferecer a eles um bom banquete, nenhum cientista foi ainda capaz de responder.

A extinção do grupo

Estudando os fósseis da Megafauna Pleistocênica, os paleontólogos têm tentado desvendar outro dos grandes mistérios envolvendo esses animais: o que foi que causou sua extinção. Muitas hipóteses foram sugeridas e não há ainda uma resposta definitiva, o que leva os cientistas a pesquisarem cada vez mais. Hermínio nos explica, porém, que há hipóteses que são mais prováveis do que outras, por apresentarem mais evidências entre os fósseis que já foram encontrados. “Em todo o mundo diversas hipóteses têm sido levantadas para explicar a extinção da megafauna, porém a hipótese mais aceita está relacionada à mudança climática que afetou o final do Pleistoceno (por volta de 11.000 anos antes do presente), levando o planeta a um clima mais quente e úmido, diferente do clima para o qual a maioria das espécies da Megafauna Pleistocênica estava adaptada: clima seco e frio”. A chegada dos humanos em novos continentes também pode ter contribuído para a extinção desses animais, uma vez que em alguns lugares, há sinais de que os homens pré-históricos os caçaram. “Atualmente, muitos paleontólogos aceitam essas hipóteses de modo complementar, assumindo que a mudança climática pleistocênica foi a principal responsável por essa extinção, a qual foi acelerada pela ação predatória dos humanos”, diz Araújo Júnior.

O fato é que a extinção da Megafauna Pleistocênica fez com que esses grandes animais sumissem de vez do nosso continente. Mas se engana quem pensa que eles desaparecem completamente do mundo todo. Ao contrário do que aconteceu com os dinossauros, que não podem mais ser encontrados vivos, você ainda tem a chance de ver representantes da Megafauna andando por aí. É só fazer uma visitinha ao continente africano, onde elefantes, girafas, hipopótamos, rinocerontes, leões, continuam a nos dar provas de quão exuberante foi a Megafauna Pleistocênica. “Assim como os dinossauros, ela é um registro da evolução dos organismos ao longo do tempo geológico e uma evidência de como o nosso planeta se modificou durante sua história”, declara, apaixonado pelo seu trabalho, o paleontólogo.

Representantes da Megafauna Pleistocênica brasileira!

Preguiças-gigantes EREMOTHERIUM

Existiram diversas espécies de preguiças-gigantes no Brasil e nem todas elas eram tão grandes (a menor preguiça-gigante que viveu no Brasil tinha o tamanho de uma ovelha!) A espécie Eremotherium laurillardi foi a mais comum delas, com fósseis encontrados em quase todos os Estados brasileiros. Essa espécie era realmente gigante: pesava cerca de 5 toneladas e podia alcançar até 5 metros de altura. Obs: O Sid, do filme “A Era do Gelo” é uma preguiça-gigante, mas ele não é das maiores que já existiram!

Mastodontes  mastodonte

Os mastodontes são parentes extintos dos elefantes, assim como os mamutes. A diferença principal entre os dois é que os mamutes viveram apenas em locais frios, como na América do Norte, no norte da Europa, e principalmente na Sibéria (região gelada no norte do continente asiático), enquanto os mastodontes se espalharam por várias regiões do planeta. Como você pode imaginar, no Brasil foram encontrados apenas fósseis de mastodontes. Já o Manny, do filme “A Era do Gelo”, é um mamute.

TatuGlyptodons-gigantes

Assim como as preguiças-gigantes, várias espécies de tatus gigantes também viveram em nosso país. O maior deles, chamado Glyptodon clavipes, tinha aproximadamente o tamanho de um carro Fusca! Essa espécie possuía uma clava (um tipo de porrete) espinhosa na ponta da cauda que usava para defender-se de predadores. Andavam devagar e comiam apenas vegetais (eram herbívoros).

Toxodontes Toxodon

Os toxodontes eram grandes herbívoros parecidos com os rinocerontes de hoje. Possuíam um corpo grande e forte e pernas curtas. Os dentes desse animal indicam que eles provavelmente eram pastadores, alimentando-se de grama.

tigre-dente-de-sabre

Tigres-dentes-de-sabre

O tigre-dentes-de-sabre foi o maior carnívoro da América do Sul (era maior do que um leão!). A principal característica desse animal era seus dois dentes de cima (os dentes caninos), longos e afiados, que usava para matar suas presas. O Diego, do filme A Era do Gelo é um tigre-dentes-de-sabre.

Paleolhamas PALAEOLAMA

Essas lhamas pré-históricas eram bem parecidas com as lhamas que vivem hoje na Cordilheira dos Andes, porém, eram maiores e mais pesadas. No Brasil, além de esqueletos completos, foram descobertos coprólitos (cocô fóssil!) e pelos, os quais eram longos e de coloração marrom-clara. Ao contrário das lhamas atuais, as paleolhamas não viviam em montanhas, habitando ambientes mais planos.

MACRAUCHENIA

Macrauquênias

As macrauquênias eram animais herbívoros do tamanho de camelos, com as pernas da frente mais compridas do que as pernas de trás, como as girafas, e que apresentavam o nariz ligado a uma pequena tromba, como as antas. Como você pode notar, as macrauquênias apresentavam características de vários outros animais, sem parecer exatamente com nenhum deles!

Esse tema dá trabalho!

Que tal ajudar a conhecer mais sobre quem eram os animais gigantes que viveram no Pleistoceno brasileiro? Elver Luiz Mayer, aluno de doutorado em Paleontologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), tem se dedicado a essa tarefa e nos conta, na entrevista abaixo, como é seu trabalho.

Criança ComCiência (CCC): Para quem pensa em trabalhar pesquisando os fósseis de animais da Megafauna Pleistocênica, qual a formação necessária?

Elver Mayer (EM): Como atualmente não existe uma graduação específica na área de Paleontologia, o ponto de partida costuma ser a graduação em Ciências Biológicas (Biologia) ou em Geologia. Depois o interessado pode se aprofundar através de cursos de pós graduação. 

CCC: Quais características e habilidades alguém que quer trabalhar nessa área precisa ter?

EM: Antes de tudo é preciso gostar da natureza, pois para encontrar os fósseis é preciso realizar atividades de campo. Além disso, acredito que as principais características são a determinação e a paciência. A primeira é importante para que o interessado não se desvie do objetivo e a segunda para que ele consiga enfrentar os desafios que surgem ao longo do trabalho. Já as habilidades importantes nesta área são a memória visual, pois o tamanho e forma dos fósseis são imprescindíveis para sua identificação, e a imaginação, afinal, os fósseis nos contam apenas uma parte da história do passado do planeta. 

CCC: Quais são os maiores desafios e as maiores alegrias no trabalho com os fósseis desses animais?

EM: O maior desafio para mim é que existem muitos aspectos dos fósseis para os quais temos poucas informações. Sendo assim, não existe uma receita perfeita para estudá-los e os pesquisadores podem sempre aprender ou até desenvolver novas técnicas. As alegrias são muitas: trabalhar em meio à natureza quando se está em campo, desvendar os segredos desses animais do passado, conhecer novos lugares e pessoas durante as reuniões científicas etc.

CCC: Onde eu posso trabalhar se eu seguir essa carreira?

EM: Geralmente os profissionais dessa área atuam em universidades, museus e mais recentemente, também em empresas privadas, realizando estudos sobre a ocorrência dos fósseis em locais que serão alvo de obras de diversos tipos.

Multimídia

Vídeo “Como desenhar um tigre-dentes-de-sabre” https://www.youtube.com/watch?v=WWo97q6j9zk

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